Reflexões

Relação e Arte

Encontrar no acto de estar em terapia uma forma de arte, num movimento que se coordena a dois, encena em si a mais bonita descoberta daquele que pode ser o propósito individual de cada um no seu processo de desenvolvimento e crescimento humano.

Muitas vezes questionado o “para quê” deste processo, julgo poder encontrar-se a resposta na possibilidade de re-Conhecer e Compreender do quão únicos todos somos e assim é o nosso mundo interno e linguagem. Um mundo interno acessível através e dentro da relação terapêutica, que em si própria permite a mudança, numa construção de significados que se vai desenvolvendo entre a pessoa-terapeuta e a pessoa-paciente, no seu tempo e a seu tempo.

O processo terapêutico cria espaço de revelação de alguns “interditos não declarados”, em segurança e intimidade, enquanto momento de aprendizagem empática, através do contacto com a forma como a pessoa experiencia o seu passado, presente e futuro. E é conhecendo a sua história e laços que se pode seguir, num encontro mais profundo e com o propósito da expansão em liberdade e criação de uma postura de maior empatia da pessoa com os seus e os outros do mundo, fora da terapia.

Poder criar de forma humana momentos de arte com cada pessoa com quem nos relacionamos, sermos poetas na escrita da nossa história e significados, valores e atitudes, torna-se monumental num período social em que se procura a rapidez e o instantâneo, privilegiando o sentido visual e estético das coisas.

Num período no qual parece que muitas vezes as pessoas já mal se conhecem e se olham, olhos nos olhos, na amizade, no amor conjugal e na família – uma ideia a refletir – se estar em relação não é Arte, sobre a égide do amor, respeito e empatia, não sei o que é…

 

Ana de Sousa Martins

Modo: verão 2018

Post Julho

Seduzida pela necessidade de me justificar perante um tempo que vai longo entre uma reflexão e outra, opto por apenas aceitar que outras reflexões foram necessárias para o dévir do meu trabalho como terapeuta.

Desde então, várias leituras se foram compilando no meu arquivo de memória pessoal, permitindo-me estar aqui agora numa partilha convosco.

Numa espécie de lógica de continuidade, sem que tenha de acontecer exatamente assim, num momento seguinte ao abordado em fevereiro, – a constituição do casal – e nalguns casos, surge a constituição da família com a parentalidade.

Folheio Ausloos (psiquiatra e psicoterapeuta belga) e estanco no seguinte: “Ser pai: uma profissão difícil…”. Será uma profissão? E será difícil?

Difícil é sempre uma palavra… difícil.

Escolho então em modo de reenquadramento: uma profissão desafiante. Um desafio que implica uma mudança de vida à qual muitas vezes se associam momentos de crise (descrito por Ausloos como momentos que antecedem a produção de modificações, i.e. transformações e mudanças).

Educar uma criança, ou ser uma figura central no processo de desenvolvimento global de uma pessoa, é um processo para o qual os pais se vão preparando, pela experiência. Por muitos livros, blogues, dicas úteis e afins que existam não há literatura suficiente para acautelar a explosão de emoções, sentimentos e dúvidas que surgem. Mesmo relembrando o papel da herança familiar, que se pode olhar como índice de um manual de instruções – alguns modelos repetem-se, outros constroem-se fazendo diferente.

O nascimento do primeiro filho determina o início de uma nova função para a família, a parentalidade, cuja tarefa primordial será cuidar do seu filho. As transformações pelas quais o casal passa interferem na sua intimidade e relações conjugais. Passam assim a configurar um triângulo que “mexe” com as regras e papeis acordados num primeiro tempo. O tempo em que eram só dois.

Mais ainda, e nos dias que correm, vive-se em maior isolamento social e relacional. Pais e avós podem estar longe ou trabalham, ao contrário do que acontecia no passado, o que por si é bastante impactante para a presença em família. Os amigos estão muitas vezes à volta das suas vidas e rotinas e parece existir ainda a forte presença do que considero mitos e crenças limitadoras como são exemplo: “não preciso da ajuda de ninguém” e “sou capaz de fazer tudo sozinho”. Ficam assim encapsuladas as dificuldades, complicações, cansaços e tensões, tantas vezes tão difíceis de suportar e tão importantes de ser partilhadas, podendo mesmo perder-se o espaço individual e do casal.

Um destes dias, reforçava a importância de relembrar a nossa humanidade de dentro (artigo partilhado em página de Facebook e LinkedIn), o olhar o outro e as suas opções com abertura, humildade e candura, renunciando a uma postura de crítica e ataque. Parece-me que ao reler esta reflexão reforço a importância deste olhar, sobretudo para quem está a dar os passos numa fase tão importante da sua vida como é aquela de ser pai e mãe, num momento em que parece que se “tem de estar sempre bem para a fotografia”.

Considerando que tudo corre e correrá pelo melhor, a chegada de um bebé à família pode provocar muita dissonância, assimetria e ambivalência.

Para a mulher, os sentimentos de insegurança, medo e angústia por se sentir pouco preparada, enquanto irradia amor e felicidade pelo seu bebé. Numa montanha russa de emoções, entre o sentir-se agradecida por tudo e ao mesmo tempo avassalada pela necessidade do pequeno ser de si e do novo papel que desempenha, ser mãe.

Para o homem, e numa sociedade em que se começa a ouvir falar ainda em tom baixo sobre a importância da expressão do seu sentir e sensibilidade, o sentimento de não saber como pegar, como alimentar, como fazer. “Abanado” pelo seu novo papel de pai, de cuidador e de quem providencia, de profissional e de homem, com os valores que se cruzam e embatem dentro de si, sentindo-se indispensável para a homeostase e equilíbrio mínimo, e que para isso se esforça para estar atento não só ao bebé e suas necessidades como às necessidades da sua companheira e recente mãe.

Dizia Ausloos “os casais fazem os bebés e os bebés fazem os pais…”

Guardo em mim a dúvida se se poderá considerar a parentalidade como uma profissão, deixando ao critério de cada um encontrar a sua definição deste momento tão humano com tudo o que existe de bom e menos bom, por isso, e repito, humano. Especialmente quando nasce um novo Ser, tão bom de ser partilhado de 5 sentidos em riste.

A frequência com que surgem casos em que se perdem espaços de relação, em que o casal fica esquecido e só se ouvem os pais, podendo mesmo de deixar de existir casal, e se decide pela separação e divórcio; em que os amigos se afastam e os conflitos familiares se aproximam; em que se esquece que somos seres humanos cheios de características, algumas mais em forma de lacuna do que outras, apagando a importância da empatia, da compreensão e dos momentos de conversa e partilha, de tudo…

Leva-me a pensar como podem ser dias parecidos aos deste verão de 2018, em que ora chove, ora faz sol, ora apetece ora não, ora se reclama pelo vento, ora porque não há vento. Um verão diferente dos outros, todos diferentes entre si, simplesmente porque o Mundo também está a mudar. Como tal, a minha sugestão fica como um apelo ao aproveitar do tempo tal como ele se apresenta, com criatividade e muito prazer.

Boas Férias.

(Foto com crédito pessoal, alusiva ao tempo de férias: “de outra forma a porta fica fechada, Love is the Key”)

 

 

 

 

Pensar o Casal num Carnaval vestido de São Valentim

SPAIN. Valencia. 1952. Robert and Mary FRANK.

Foto por: Elliott Erwitt

 

Sento-me ao computador para escrever. Há dias que ando nisto… circulam temas vários no meu pensamento. Reflexão atropelada pelos dias e horas que passam por mim e quando me dou conta, “já não foi hoje”.

Falta uma semana para o Carnaval e uma semana para o Dia de São Valentim ou Dia dos Namorados. Já começam a surgir opiniões e corações, quando no plano ainda se sente o rescaldo do evento “Super Nanny” e de tantos outros que me trespassam o sentido a direito, rasgando a meio a noção de sensatez dos demais.

Um destes dias, enquanto assistia ao programa “Fugiram de Casa dos seus Pais”, em que o Bruno Nogueira e o Miguel Esteves Cardoso falavam sobre a ideia de as mulheres tornarem os homens melhores, o Miguel Esteves Cardoso defendia que as mulheres têm a mania de querer mudar o seu companheiro, e que no caso dele havia sido para melhor. Ele estava um homem mudado para melhor, nalguns aspetos, pela influência da sua companheira. Questionei-me…

“Será que as mulheres têm esse poder? De mudar os homens. Será que os homens são também poderosos na matéria de mudança? Das mulheres. Será que as pessoas se mudam na relação de casal? E como será que nos mudamos na relação?”

Debrucei-me então a pensar um pouco sobre isto, e sobre o que tenho vivido ultimamente no encontro com os casais que conheço e com os casais que me procuram para ajuda terapêutica.

O eterno mistério do Casal, este ano debatido no IV Congresso Ibérico de Terapia Familiar (mês de Outubro em Coimbra), a dinâmica “encantada” para tantos terapeutas a quem me vou ligando.

Pensar o casal começa por reconhecer a sua constituição como uma etapa no ciclo de vida, do indivíduo e da família, na qual estão presentes tarefas de construção e negociação de uma nova família, fundamentais numa fase em que são estabelecidos uma série de acordos entre as duas pessoas (por exemplo nos aspetos práticos da vida em comum; nas diferenças que existem entre si enquanto indivíduos, nas suas densidades e valores) e aqueles que fazem parte do seu núcleo (quais as regras que definem a relação com as famílias de origem, os amigos ou outros).

Numa família existem normas transacionais que são mantidas na interdependência do casal – conjugalidade, ou na forma como se definem hierarquias entre pais e filhos – parentalidade.

Os papéis familiares vão se definindo através de processos de diferenciação correlacionais, o que significa que os comportamentos de dois membros da família ajustam-se mutuamente, de forma que, quando um põe em jogo certos aspetos de sua pessoa, outro ajusta-se de forma complementar.

Partindo da ideia base de que os modelos relacionais se aprendem, em família e por modelagem, uma vez construída uma nova família as pessoas podem reproduzir os papéis que conheceram e com os quais aprenderam a relacionar-se, ou por outro lado, podem querer assumir novos papéis e conceder papéis à outra pessoa. Neste último, numa procura de reparar, controlar e “fazer diferente” daquilo que observaram ou sentiram na sua família de origem (ex.: “um dia que me case ou que vá viver junto com alguém não vou fazer como os meus pais e as tarefas serão todas divididas entre mim e a minha companheira, não quero ser como o meu pai, que não ajudava a minha mãe”).

Cada casal traz então para a relação a história da sua família, e quando uma família nova se começa a formar, com os seus acordos, começam a negociar-se regras e a partilha de papéis.

A possibilidade de escreverem a sua história mais próxima daquela que poderá ser a narrativa do casal é tao maior quanto a resolução de conflitos com a sua família de origem. A pessoa é assim mais livre de escolher um par quando guarda em si menos conflitos não resolvidos com a sua família no que diz respeito à existência de laços ou barreiras familiares.

A nova família desenvolve-se e cresce com o contributo das experiências pessoais, dos modelos relacionais de cada um e as suas expectativas, com as suas ambições e projetos. E a mudança dá-se: quando ambicionam a dois novos projetos, crescendo e melhorando lado a lado.

Se calhar elas têm o poder de os mudar, e eles de as mudar, ou de trazer ao de cima partes de si que enquanto solteiros não têm espaço para se manifestar por só fazerem sentido a dois, em relação, e por isso mudam-se um ao outro. Um mudar entre aspas.

Na vivência do casal a permanência é no Nós, aquela terceira entidade que se constrói a dois, muitas vezes com conflitos e outros nós, numa dinâmica que exige diálogo e o recordar da entidade de negociação, que muitas vezes se exprime em tom de cedência ou desmistificar de algumas ideias mágicas que ainda torneiam a harmonia do casal.

Como felizmente estamos noutro tempo, diferente do tempo de São Valentim, o casamento e a união dos amados já se pode dar em liberdade, tanto maior quanto a infindável capacidade do ser humano se amar e amar o outro. Sem máscaras, em folia, dançando ao seu ritmo.

2018

Início de 2018

Após algum tempo de reflexão, e para o tão aguardado voto de novo ano, partilho convosco o sentimento que permanece.

Olhando a foto acima podemos apreciar as suas cores, a delicadeza do momento que emoldura e simplesmente atribuir a sua beleza ao último pôr do sol do ano de 2017.

Pois a minha proposta é: que se permitam ir mais além.

Que se permitam a olhar o lado iluminado e a forma da sombra em nuvem que parece cobrir o sol, numa espécie de encontro entre lado “negro” e lado da “força”, ambos parte de nós. Entre um mar intenso de emoções e um mar calmo de permanência que embala com a sua voz e pela possibilidade de transformação como aquela porque passam tantas coisas até ser areia.

O meu desejo… que se permitam a sentir todos os cheiros, que a pele se arrepie com o frio ou verta suor com o calor, que o desconforto da areia nos dedos possa também ser o conforto de uma sesta por ela abraçados. Que os opostos façam parte, e o meio também.

Desafiem-se a andar passo a passo, com tempo, num caminho por cada dia, cada semana ou cada mês, desenhando pequenos objetivos para cada um destes momentos. Objetivos que só o próprio pode construir e agir realmente, mesmo que magicamente atribua a um novo ano essa função.

Seja o seu ano novo e permita-se à surpresa de sentir os seus feitos, ao longo do calendário que vai marcando o ritmo.

Desejo-vos um 2018 em pleno.

O Inverno chegou, com o Natal à vista.

Reflexões*

Celebra-se hoje o primeiro dia de Inverno e, na segunda-feira, o Natal.

Com o frio encerra-se o ano e com ele diferentes significados de uma época celebrada com uma indiscutível variabilidade de estados de humor.

O Natal pode ser encenado em tons de vermelho e verde, cores de azevinho ou manhãs de Natal, pelas famílias que celebram esta época cheias de entusiamo e fulgor, curiosas pelas expressões dos seus mais queridos perante a surpresa das suas oferendas. E pode ter um efeito antagónico para espíritos mais críticos, seja por questões éticas, estéticas, económicas ou mesmo pelo reviver de emoções e sentimentos.

Celebrado no solstício do Inverno, o Natal é acima de tudo um momento que se sente em família, com a escolha da casa, quem traz o quê, quem fica sentado onde e as cadeiras vazias ocupadas por aqueles que no coração moram.

Uma época em que a palavra Amor surge mais do que nunca, um desafio à desmaterialização do afeto, dado e recebido numa forma assumida de pele a pele, por um abraço prolongado e uma palavra doce.

Feliz Natal a todos e aproveitemos este tempo para recriar esperanças, para sonhar com o que continuamos a desejar e perseguir, para nos permitirmos a um recomeço.

(*Imagem com direitos de autor)

Boas Vindas

Dou-vos as boas vindas ao meu espaço, à minha “casa”.
Aqui acolho-Vos em relação terapêutica, a partir da qual se pode estabelecer a diferença, gerando informação.
Informação que pode ajudar ao processo de descoberta e sobretudo de construção de uma nova história ou narrativa, num movimento para a mudança e melhoria significativa de qualidade de vida no seu todo.
Se sente que este é o momento e ainda existem dúvidas, contacte-me. As respostas encontram-se quando colocamos questões.