Modo: verão 2018

Post Julho

Seduzida pela necessidade de me justificar perante um tempo que vai longo entre uma reflexão e outra, opto por apenas aceitar que outras reflexões foram necessárias para o dévir do meu trabalho como terapeuta.

Desde então, várias leituras se foram compilando no meu arquivo de memória pessoal, permitindo-me estar aqui agora numa partilha convosco.

Numa espécie de lógica de continuidade, sem que tenha de acontecer exatamente assim, num momento seguinte ao abordado em fevereiro, – a constituição do casal – e nalguns casos, surge a constituição da família com a parentalidade.

Folheio Ausloos (psiquiatra e psicoterapeuta belga) e estanco no seguinte: “Ser pai: uma profissão difícil…”. Será uma profissão? E será difícil?

Difícil é sempre uma palavra… difícil.

Escolho então em modo de reenquadramento: uma profissão desafiante. Um desafio que implica uma mudança de vida à qual muitas vezes se associam momentos de crise (descrito por Ausloos como momentos que antecedem a produção de modificações, i.e. transformações e mudanças).

Educar uma criança, ou ser uma figura central no processo de desenvolvimento global de uma pessoa, é um processo para o qual os pais se vão preparando, pela experiência. Por muitos livros, blogues, dicas úteis e afins que existam não há literatura suficiente para acautelar a explosão de emoções, sentimentos e dúvidas que surgem. Mesmo relembrando o papel da herança familiar, que se pode olhar como índice de um manual de instruções – alguns modelos repetem-se, outros constroem-se fazendo diferente.

O nascimento do primeiro filho determina o início de uma nova função para a família, a parentalidade, cuja tarefa primordial será cuidar do seu filho. As transformações pelas quais o casal passa interferem na sua intimidade e relações conjugais. Passam assim a configurar um triângulo que “mexe” com as regras e papeis acordados num primeiro tempo. O tempo em que eram só dois.

Mais ainda, e nos dias que correm, vive-se em maior isolamento social e relacional. Pais e avós podem estar longe ou trabalham, ao contrário do que acontecia no passado, o que por si é bastante impactante para a presença em família. Os amigos estão muitas vezes à volta das suas vidas e rotinas e parece existir ainda a forte presença do que considero mitos e crenças limitadoras como são exemplo: “não preciso da ajuda de ninguém” e “sou capaz de fazer tudo sozinho”. Ficam assim encapsuladas as dificuldades, complicações, cansaços e tensões, tantas vezes tão difíceis de suportar e tão importantes de ser partilhadas, podendo mesmo perder-se o espaço individual e do casal.

Um destes dias, reforçava a importância de relembrar a nossa humanidade de dentro (artigo partilhado em página de Facebook e LinkedIn), o olhar o outro e as suas opções com abertura, humildade e candura, renunciando a uma postura de crítica e ataque. Parece-me que ao reler esta reflexão reforço a importância deste olhar, sobretudo para quem está a dar os passos numa fase tão importante da sua vida como é aquela de ser pai e mãe, num momento em que parece que se “tem de estar sempre bem para a fotografia”.

Considerando que tudo corre e correrá pelo melhor, a chegada de um bebé à família pode provocar muita dissonância, assimetria e ambivalência.

Para a mulher, os sentimentos de insegurança, medo e angústia por se sentir pouco preparada, enquanto irradia amor e felicidade pelo seu bebé. Numa montanha russa de emoções, entre o sentir-se agradecida por tudo e ao mesmo tempo avassalada pela necessidade do pequeno ser de si e do novo papel que desempenha, ser mãe.

Para o homem, e numa sociedade em que se começa a ouvir falar ainda em tom baixo sobre a importância da expressão do seu sentir e sensibilidade, o sentimento de não saber como pegar, como alimentar, como fazer. “Abanado” pelo seu novo papel de pai, de cuidador e de quem providencia, de profissional e de homem, com os valores que se cruzam e embatem dentro de si, sentindo-se indispensável para a homeostase e equilíbrio mínimo, e que para isso se esforça para estar atento não só ao bebé e suas necessidades como às necessidades da sua companheira e recente mãe.

Dizia Ausloos “os casais fazem os bebés e os bebés fazem os pais…”

Guardo em mim a dúvida se se poderá considerar a parentalidade como uma profissão, deixando ao critério de cada um encontrar a sua definição deste momento tão humano com tudo o que existe de bom e menos bom, por isso, e repito, humano. Especialmente quando nasce um novo Ser, tão bom de ser partilhado de 5 sentidos em riste.

A frequência com que surgem casos em que se perdem espaços de relação, em que o casal fica esquecido e só se ouvem os pais, podendo mesmo de deixar de existir casal, e se decide pela separação e divórcio; em que os amigos se afastam e os conflitos familiares se aproximam; em que se esquece que somos seres humanos cheios de características, algumas mais em forma de lacuna do que outras, apagando a importância da empatia, da compreensão e dos momentos de conversa e partilha, de tudo…

Leva-me a pensar como podem ser dias parecidos aos deste verão de 2018, em que ora chove, ora faz sol, ora apetece ora não, ora se reclama pelo vento, ora porque não há vento. Um verão diferente dos outros, todos diferentes entre si, simplesmente porque o Mundo também está a mudar. Como tal, a minha sugestão fica como um apelo ao aproveitar do tempo tal como ele se apresenta, com criatividade e muito prazer.

Boas Férias.

(Foto com crédito pessoal, alusiva ao tempo de férias: “de outra forma a porta fica fechada, Love is the Key”)

 

 

 

 

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