Pensar o Casal num Carnaval vestido de São Valentim

SPAIN. Valencia. 1952. Robert and Mary FRANK.

Foto por: Elliott Erwitt

 

Sento-me ao computador para escrever. Há dias que ando nisto… circulam temas vários no meu pensamento. Reflexão atropelada pelos dias e horas que passam por mim e quando me dou conta, “já não foi hoje”.

Falta uma semana para o Carnaval e uma semana para o Dia de São Valentim ou Dia dos Namorados. Já começam a surgir opiniões e corações, quando no plano ainda se sente o rescaldo do evento “Super Nanny” e de tantos outros que me trespassam o sentido a direito, rasgando a meio a noção de sensatez dos demais.

Um destes dias, enquanto assistia ao programa “Fugiram de Casa dos seus Pais”, em que o Bruno Nogueira e o Miguel Esteves Cardoso falavam sobre a ideia de as mulheres tornarem os homens melhores, o Miguel Esteves Cardoso defendia que as mulheres têm a mania de querer mudar o seu companheiro, e que no caso dele havia sido para melhor. Ele estava um homem mudado para melhor, nalguns aspetos, pela influência da sua companheira. Questionei-me…

“Será que as mulheres têm esse poder? De mudar os homens. Será que os homens são também poderosos na matéria de mudança? Das mulheres. Será que as pessoas se mudam na relação de casal? E como será que nos mudamos na relação?”

Debrucei-me então a pensar um pouco sobre isto, e sobre o que tenho vivido ultimamente no encontro com os casais que conheço e com os casais que me procuram para ajuda terapêutica.

O eterno mistério do Casal, este ano debatido no IV Congresso Ibérico de Terapia Familiar (mês de Outubro em Coimbra), a dinâmica “encantada” para tantos terapeutas a quem me vou ligando.

Pensar o casal começa por reconhecer a sua constituição como uma etapa no ciclo de vida, do indivíduo e da família, na qual estão presentes tarefas de construção e negociação de uma nova família, fundamentais numa fase em que são estabelecidos uma série de acordos entre as duas pessoas (por exemplo nos aspetos práticos da vida em comum; nas diferenças que existem entre si enquanto indivíduos, nas suas densidades e valores) e aqueles que fazem parte do seu núcleo (quais as regras que definem a relação com as famílias de origem, os amigos ou outros).

Numa família existem normas transacionais que são mantidas na interdependência do casal – conjugalidade, ou na forma como se definem hierarquias entre pais e filhos – parentalidade.

Os papéis familiares vão se definindo através de processos de diferenciação correlacionais, o que significa que os comportamentos de dois membros da família ajustam-se mutuamente, de forma que, quando um põe em jogo certos aspetos de sua pessoa, outro ajusta-se de forma complementar.

Partindo da ideia base de que os modelos relacionais se aprendem, em família e por modelagem, uma vez construída uma nova família as pessoas podem reproduzir os papéis que conheceram e com os quais aprenderam a relacionar-se, ou por outro lado, podem querer assumir novos papéis e conceder papéis à outra pessoa. Neste último, numa procura de reparar, controlar e “fazer diferente” daquilo que observaram ou sentiram na sua família de origem (ex.: “um dia que me case ou que vá viver junto com alguém não vou fazer como os meus pais e as tarefas serão todas divididas entre mim e a minha companheira, não quero ser como o meu pai, que não ajudava a minha mãe”).

Cada casal traz então para a relação a história da sua família, e quando uma família nova se começa a formar, com os seus acordos, começam a negociar-se regras e a partilha de papéis.

A possibilidade de escreverem a sua história mais próxima daquela que poderá ser a narrativa do casal é tao maior quanto a resolução de conflitos com a sua família de origem. A pessoa é assim mais livre de escolher um par quando guarda em si menos conflitos não resolvidos com a sua família no que diz respeito à existência de laços ou barreiras familiares.

A nova família desenvolve-se e cresce com o contributo das experiências pessoais, dos modelos relacionais de cada um e as suas expectativas, com as suas ambições e projetos. E a mudança dá-se: quando ambicionam a dois novos projetos, crescendo e melhorando lado a lado.

Se calhar elas têm o poder de os mudar, e eles de as mudar, ou de trazer ao de cima partes de si que enquanto solteiros não têm espaço para se manifestar por só fazerem sentido a dois, em relação, e por isso mudam-se um ao outro. Um mudar entre aspas.

Na vivência do casal a permanência é no Nós, aquela terceira entidade que se constrói a dois, muitas vezes com conflitos e outros nós, numa dinâmica que exige diálogo e o recordar da entidade de negociação, que muitas vezes se exprime em tom de cedência ou desmistificar de algumas ideias mágicas que ainda torneiam a harmonia do casal.

Como felizmente estamos noutro tempo, diferente do tempo de São Valentim, o casamento e a união dos amados já se pode dar em liberdade, tanto maior quanto a infindável capacidade do ser humano se amar e amar o outro. Sem máscaras, em folia, dançando ao seu ritmo.

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